
A notícia de hoje é dessas que preferíamos não saber. Alguém chega e conta que um casal de amigos acaba de se separar após quase trinta anos de convivência. Justamente aquele casal que exibia publicamente carinhos e cuidados. O casal que justificava o valor do casamento com brilho nos olhos e com um tom suave na voz. O casal com filhos bonitos e saudáveis que testemunhavam a harmonia do lar em que foram criados encaminhando-se na vida com responsabilidade e alegria. Foi difícil hoje digerir o café da manhã.

Pergunto o motivo e o amigo, portador da notícia, responde que culpam a rotina, que segundo eles, desgasta e destrói qualquer relacão. Por toda a manhã refleti sobre isso, sobre a vida e sobre a rotina. Para mim não há nada mais prazeroso do que a rotina. Aquilo que fazemos cotidianamente numa prudente monotonia. Se não nos machuca ou fere, a rotina só nos dignifica, faz crescer e amadurecer como pessoa ou como casal. Bendita seja a rotina.

Bendita seja a rotina do calor do corpo do outro ao lado na cama e da mesmice deliciosa de acordar de manhã sempre acompanhada. Bendita seja a rotina dos telefonemas no meio da tarde para saber se está tudo bem e se virá direto do trabalho para casa, mesmo sabendo de antemão a resposta. A rotina de escutar a chave girando no portão e sentir que está tudo no seu devido lugar e seu filho são e salvo chegou da faculdade, está protegido dentro de casa. A rotina sinceramente não me faz mal e acredito que ela esteja ali para costurar os dias, os meses, os anos, a vida, e a história da gente.
O que me assusta é justamente o contrário, a falta de rotina, a mudança dos costumes e daquilo que foi ao longo da vida planejado por nós. Quando o silêncio tempera as refeições e não a conversa partilhada à mesa. Quando não há o que dizer, nem do que achar graça e as reclamações e os elogios são guardados para um depois que nunca chega aí sim é a hora da preocupação. Quando o fazer cotidiano deu lugar ao desabitual provocando o descontrole da saudável rotina familiar aí sim pode mandar chamar o pastor, o padre, o juiz, o rabino, a Pastoral familiar, ou qualquer um que possa ajudar porque há algo de errado acontecendo.

2 comentários:
Giovanna,
seu texto, bonito na confissão de acolhida ao cotidiano de cada dia, instiga-me à valorização da simplicidade, do enxergar beleza nas pequenas(que se tornam grandes) ações do viver.
Então reflito:
Hoje sei...
não há como fugir. Com tantas tentativas de mudanças, a repetição da mudança também se torna rotina. O que me cabe é aceitar que assim o é.
Lindo texto, maravilhoso e comovente. Também gosto de rotina, das coisas simples. É ótimo sair da rotina vez ou outra, mas é maravilhoso voltar para ela. beijos, seguindo seu blog também.
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