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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Uma carta pra tia Alice

Hoje vou escrever uma carta pra tia Alice. Recorro as mal traçadas linhas para enviar-lhe minhas  notícias e saber das suas. Tia Alice  não sabe usar o computador, não tem endereço eletrônico e nem intimidade com a tecnologia. Quando o carteiro chega em seu portão com aquela camisa amarelinha e grita o seu nome a minha tia fica ciente dos textos que escrevo aqui, das angústias e alegrias que vivo no dia-a-dia.

Tia Alice, tia Cristina (a freira) e o Vitor

Tia Alice não anda bem de saúde e sinto saudade das suas risadas, das suas histórias. Mas saudades mesmo sinto do seu carinho, dos seus abraços e daquele seu jeito de me tratar como se eu ainda fosse uma menina. A minha tia é como aquelas tias açucaradas que estragam os sobrinhos e que a gente nunca esquece.

Quando eu era crianças disputava a atenção da tia Alice com os outros primos. Ela era casada com um português, o tio Marco e ele era tão carinhoso quanto ela. Não tinham filhos, aliás demoram a tê-los e então toda a atenção deles estava voltada para nós, os sobrinhos. O tio Marco tinha um carinho muito especial por mim e ele  justificava toda essa atenção dizendo que eu fui a primeira pessoa da família da tia que ele conheceu.  E lembro-me desse dia como se fosse hoje. Foi quando  eles se encontraram no centro da cidade e ele ficou tão encantado comigo e me presenteou com um pacotinho de balas que trazia dentro dele um cartão com flores desenhadas, que guardei por muito tempo. Tio Marco faleceu em 2002, mas nunca esqueço desse tio tão querido e amigo que fez parte da minha infância.

Tia Alice, Vitor, Eduardo (meu primo e filho mais novo da tia Alice) e eu

Até hoje quando chego na casa da tia Alice, no Rio de Janeiro,  para as férias, sinto-me em casa e meus dias tornam-se uma festa constante. As suas gargalhadas engraçadas contagiam quem está por perto e ninguém fica indiferente ao jeito Alice de ser.

A tia sempre foi minha cúmplice, minha amiga, minha incentivadora e defensora. Defendia-me das palmadas da minha mãe, do meu padrasto e se por algum motivo, não tivesse sucesso em sua defesa, dividia o castigo comigo. Por ser assim, certa vez, quando eu tinha três anos, dormimos juntas no chão porque fiz xixi na cama (castigo de padrasto). Entrou na minha frente em diversos momentos e tomou a chinelada em meu lugar e foram poucos os dias que fiquei no colégio interno depois que ela foi me visitar e testemunhou com seus próprios olhos minha tristeza. Alíás ela e meu tio Marco foram me buscar, naquele último dia, no Educandário Santa Cruz, na Piedade, onde nunca mais voltei.

Eu tia Alice e Ana Maria - uma das primas que disputavam comigo o carinho da tia

Hoje vou escrever uma carta pra tia Alice pra dizer da minha saudade,  dos preparativos para as férias de janeiro em sua casa e enviar cópia dos últimos textos que postei no blog. Porém não posso esquecer de pedir pra que ela se cuide melhor, siga as recomendações médicas, diminua o sal da comida, faça caminhadas regulares, ignore, pelo menos um pouco, as guloseimas em nome da sua saúde. Entretanto, num  rompante de egoísmo, vou escrever tudo isso  porque não consigo pensar na minha vida sem tê-la por perto. Porque sem a tia Alice, tenho certeza, a vida pode ser tornar muito sem graça e perderei mais um colo onde posso  repousar minha cabeça e chorar sem nenhuma vergonha. Papel perfumado e caneta na mão, inicio:

Querida tia Alice...


Aos queridos e queridas que passam por aqui deixo o meu abraço carinhoso.