terça-feira, 14 de setembro de 2010

Minha avó, a guerreira silenciosa

Minha avó Eulália tem 92 anos. Não anda mais e nem  consegue se mexer na cama . Necessita de cuidados todo o tempo. Agora até mesmo a comida é preciso que coloquem em sua boca. Tem dificuldade para engolir, enxergar e cada vez que olho pra ela a vejo um pouco menos presente entre nós. Em contrapartida sua memória e lucidez ignoram o sofrimento do corpo permitindo que lembre de tudo. Todas as vezes que vou visitá-la, com uma voz quase inaudível me pergunta por todos lá em casa, se o Vinícius melhorou, se a minha sogra está bem e tantas outras coisas que recorda.


Meu avô Otávio e Minha avó Eulália

Sofro muito nessas visitas, mas são necessárias, pois sinto o quanto ela fica feliz com a presença dos netos e bisnetos. Sofre muito porque os que moram mais perto são os que menos a  visitam. Tem saudade de um tempo em que sua casa era a nossa casa e vivia sempre cheia e todos que chegavam para um cafézinho, agua fresca ou um dedo de prosa eram muito bem vindos.

A mãe de minha mãe é uma pessoa muito especial. Com ela aprendi, através do exemplo e testemunho, a ter fé a despeito  de qualquer adversidade ou sofrimento. Teve 10 filhos e hoje lhe restam apenas três. Alguns morreram ainda bebês, num tempo que mortalidade infantil era coisa corriqueira e o acesso a hospitais e médicos, um luxo. Entre tantas histórias sofridas, conta que quando o meu tio Zeca, falecido em 1995 com 46 anos,  estava para nascer,  trablhou todo dia pilando arroz. Quando não aguientou mais de dor, pediu para a filha mais velha chamar a parteira. Era noite de natal e eu ouvi muitas vezes essa história comovida porque achava muito triste que uma pessoa precisasse trabalhar durante todo o dia de natal num serviço tão extenuante. Trabalhar grávida, aos nove meses, para mim era inconcebível.

Com o Vitor em Santa Tereza-ES, já doente andava com dificuldade

Casou-se aos 15 anos e já perto de dar a luz á sua primeira filha, ficou sozinha em casa, no meio de uma mata com o vizinho mais próximo morando a mais de três horas de distância. A sua sorte foi que sua mãe, numa comunicação visceral que só mães e filhos  possuem, foi visitá-la e por lá ficou para ajudar a neta a nascer. Quando o meu avô chegou em casa a minha tia Cristina, que é freira há quase 50 anos, já tinha cinco dias de vida. Conta a minha avó que então ele a abençou, profeticamente disse: Cristina, Deus a crie para o bem.

Os dois com Vinícius em seu primeiro aniversário

Minha avó foi sempre calada, deixando a palavra para as horas certas. Foi casada com meu avô 64 anos, até ele falecer em 1999. Muitas vezes aceitou quieta suas determinações e decisões autoritárias e em outras fingia aceitar e fazia as coisas do seu  jeito, o que achava  correto. Quando a minha mãe ficou grávida, foi expulsa de casa pelo meu avô, que não tolerava a filha mãe solteira. Depois de  três dias do meu nascimento a minha mãe teve que me deixar com uma pessoa e voltar ao trabalho (licença maternidade também era um luxo). A pessoa que ficou por conta de mim, não andava, era paraplégica, tinha um monte de filhos. Acho que aceitou a incubência pela necessidade do dinheiro que minha mãe pagaria por seus serviços e talvez por pena da menina  com um bebê nos braços,  sem saber o que fazer. Minha tia Luzia ao voltar do colégio passou em frente a casa dessa mulher e ouviu o meu choro desesperado. Contou para a minha avó que imediatamente  mandou me buscar para que eu fosse cuidada pela família. Mas e o que fazer com o meu avô que proibiu qualquer ajuda à filha? A sábia decisão de minha avó era que eu seria escondida no quarto a noite quando o meu avô chegasse do trabalho. Assim foram os meus primeiros meses de vida. Até o meu avô se apaixonar pela menininha loira e desdentada que fui e perdoar a minha mãe, minha avó arriscou sua pele e o casamento por nós. Tenho certeza que jamais se arrependeu de sua rebeldia silenciosa.

Desculpe-me o texto tão longo, mas se tratando dessa mulher talvez um livro não baste.

23 comentários:

Maria Emilia disse...

É MUITO BOM TER TIDO AVOS, EU INFELISMENTE NÃO TIVE, E MUITOS PARABENS PELA SUA.beijos emilia

Cantinho da Cê disse...

Devo dizer que estou profundamente emocionada, tanto pela história de vida se sua avó, como por recordar da minha avó que já partiu...

Tenha uma boa noite,

Cantinho She disse...

Belo post, minha querida!
Beijo, beijo! ;)
She

Chica disse...

Que linda e emocionada homenagem à ela que tanto representa na tua vida!

Tão bom isso! um beijo e que ela possa estar por aqui, se estiver bem, por bastante tempo!beijos,chica

Maria Lúcia - Asas da Imaginação disse...

Emocionante história, Giovanna!
Beijos.

Beth/Lilás disse...

Giovanna,
Que história emocionante da sua vózinha!
Bela homenagem que fez e merecida.
bjs cariocas

Maria Célia disse...

OI Gi
Fiquei emocionada. Que história triste! Que exemplo de vida a da sua avó.
Bjos

Lúcia Soares disse...

Giovanna, uma história bonita, de mulheres fortes: sua avó, sua mãe, você.
Uma pena que a gente fique velha para o mundo, enquanto a memória está viva, e o coração bate caloroso.
Sua avozinha é linda!
Beijo!

Tati Pastorello disse...

Gi, é mais do que merecido seu amor e gratidão a esta avó tão especial! Linda história. As mulheres, antigamente, tinham outro tipo de força, uma resistência silenciosa, como você bem disse. Estou daqui encantada com tanto amor.
Eu não tive relação alguma com avós. Minha avó paterna morreu em maio agora, mas nossa relação nunca foi avó neta. Sempre fantasiei muito esta relação, que vejo hoje entre minha mãe e o Bê. É mesmo um amor diferente!
Dê muito amor a ela, enquanto é possível. Esta mulher merece tudo e um pouco mais!
Beijos.

Blog da Anabela Jardim disse...

Eu não conheci meus avôs. As minhas avós eu conheci, mas a avó materna foi para mim especial. Que história bonita a de sua avó!

Isadora disse...

Gi, embora, hoje, sua avó esteja debilitada, quantas histórias e quantas alegrias vividas ao seu lado.
É difícil quando vemos aqueles que amamos definharem aos poucos e ficarem cada vez mais quietos. É como seu linda estrela que sempre brilhou fosse aos pouquinhos apagando.
Espero que sua avó viva bem os anos que lhe estão reservados.
Um beijo

Nilce disse...

Oi, Giovanna

Deve estar sendo muito difícil para você ver a sua avó perdendo a vida aos poucos.
Que história linda vocês viveram. É o amor dobrado mesmo.

Que Deus as abençoe muito.

Bjs no coração!

Nilce

Paula Betzold disse...

Avós sao tudo de bom, ainda mais qud se tem tanto carinho... se eu parar pra falr da minha tb nao paro mais! beijinhos!

Fátima disse...

Bom dia Giovanna,

Que história mais linda...com quantas dificuldades essas mulheres guerreiras tiveram que conviver não é.
Continue dando seu carinho a ela, pois esse é sem dúvida o melhor alimento de que ela precisa nessa etapa da vida.

Fique com Deus.

Beijinho no coração.

Gina disse...

Gio,
Ontem dei uma passada aqui e li metade desse post, porque estava adoentada e não podia ficar muito tempo no micro. Estou voltando para conferir o restante. Tinha certeza que valia a pena ler até o fim.
Uma vez ouvi de uma amiga que a mãe dela (já falecida) dizia que não precisa contar tudo pro marido... Não estamos falando de coisas que denigram a moral de ninguém, claro!
Fazer a coisa certa tem perdão mais do que garantido. Sua avó arrumou um jeitinho de subverter uma ordem, colocando o coração acima de tudo. Meu Deus, que gesto bonito!
Aliás, esse post combina com perfeição com o tema de sexta da Glorinha.
Tenho certeza que essa avó deixou muitos exemplos e está deixando ainda.
Parabéns pra sua avó e pra você, por mais uma vez expor-se de um modo a valorizar o que realmente vale nessa vida!
Bjs.

armalu disse...

Que bom é ter avos, e que bom ser reconhecida pelo seu valor e trabalho, é lindo ver alguém que assume o seu passado desta maneira linda, e reconhecendo o valor das pessoas e das coisas, bem haja por isso que Deus a abençõe. bj

Heloísa disse...

Giovana,
Que história linda, de uma mulher de fibra e amorosa.
Pena que esteja passando pelo sofrimento da cama, sem nem ao menos poder virar-se por si.
Minha mãe, que está com 96 anos, está na mesma situação, agravada pelo fato de que não está mais falando e está sendo alimentada somente por sonda.
É um quadro muito triste.
Beijos.

Deia disse...

Querida Giovanna, que bom que vim lhe visitar e descobri esse seu post. Que história mais comovente o começo de sua vida! E que avó sábia, que escolhia bem suas lutas e não perdia energia com coisas que não tinham importância. Foi assim que ela teve tanta força para agir com firmeza e uma boa dose de criatividade quando a hora se mostrou... Parabéns à sua mãe que levou adiante a sua concepção e hoje temos o prazer de conviver com uma moça tão especial, gentil, sábia (agora sei de onde herdou!). Um beijo, Deia.

Nika disse...

Linda história e emocionante tbm,ñ tive contato com os meus avós, mas esse amor que vc sente pela sua avó meio que transpassa para quem lê a história, que delicia de amor..Homenagem mais que merecida, curta o amor dela muito..
bjs

Barbie Girl disse...

Lindo seu amor pelos seus avós!! Triste vê-los assim, indo em direção aos céus, mas lembre-se que sempre estarão com vc e ao lado de Deus.

Passando para te lembrar que nossa blogagem coletiva é amanhã, te espero!!!

beijos

JOANA CAMPOS disse...

Nusss 92 é amiga?
Ki linda!
e que historia heim?
As mulheres antigas davam 3 de nós, aff

Beijos

Joana Campos

Vanessa disse...

Que história!!! E parecida com as de tantas mulheres daquela época. As mulheres eram obrigadas a serem fortes porém submissas aos homens.
Imagino que esta seja apenas uma pontinha das situações que ela passou na vida não?! Uma história triste pelo sofrimento calado e bonita pela força e coragem.
Bj para vc e para ela.

lu rogeria maravilhas do trico disse...

Que historia forte e verdadeira , sua avó é maravilhosa e é mãe , que hoje essa palavra se banalizo , mas que tem um significado único , uma mãe não abandona seus filhos ela cuida acima de qualquer coisa , e sua avó é muito mãe , párabens lu