sexta-feira, 11 de setembro de 2009

As mães deveriam viver para sempre

22 anos sem a minha mãe
Como eu queria ter uma mãe para ver os seus olhos brilhando de felicidade com a minha chegada e úmidos de uma tristeza saudável com a minha partida. Uma mãe que fizesse chocolate quente e bolo de milho para me esperar. Que brincasse com os netos e se derretesse como açúcar com proteção e cuidados, num encanto de avó.



Ah, como me faz falta um colo macio e protetor e a experiência dos cabelos brancos de quem já viveu tanta coisa e superou inúmeros desafios. Como faz falta a palavra carinhosa de minha mãe, a certeza do seu apoio incondicional e o seu olhar de cumplicidade que recebi em vários momentos da minha vida. Sinto falta também da sua alegria que fazia piada de coisas sérias e ria dos dramas do dia-a-dia, dando uma leveza consoladora na vida dos que estivessem a sua volta.
Mas foi tão curto o tempo em que cuidou de mim. Nem sequer me permitiu pedir perdão por tantas coisas. Não me viu entrar na igreja para casar com quem escolhi e nem me acompanhou quando esperei os netos que desejou. Não esteve presente na minha formatura e não ouviu o meu discurso apaixonado recheado com os valores, que me ensinou ao longo da nossa convivência, embutido no meio das palavras, entrelaçados entre os pontos, parágrafos e letras.
Minha mãe comigo no colo em meu aniversário de 4 anos
Por que o Senhor Deus não faz as mães durarem para sempre? E porque o Deus da vida permite que os filhos levem tanto tempo para compreender as mães? Como demorei em entender tanta coisa e reconhecer outras tantas. Como custou para mim avaliar o preço alto que pagou pela minha vida. Noites insones, solidão, ameaças e gritos de um pai severo, peregrinação de porta em porta a procura de um abrigo e trabalho. Depois toda a sua juventude doada em favor dos cuidados de uma menina, pequenina, que chorava sem motivos e que só tinha os seus braços como redoma. Foi alto realmente o preço porque abortar era verbo inconjugável para ela. Ainda teve que aprender a lidar com a revolta de uma filha adolescente porque por mais que fosse forte, por mais que se desdobrasse em cuidados não conseguiu substituir um pai. Conseguiu sim ser uma super mãe, mas mesmos as mulheres poderosas têm limites e tanto esforço não foi suficiente para proteger-me da ausência do meu pai.
Mas agora estou aqui, sem saber o que fazer diante da vida e dos entrelaços que ela apresenta. Só me resta fazer memória da sua coragem e do seu exemplo de vida. Posso sentir o seu perfume nas noites de desespero, posso enxergar o seu olhar nas minhas horas de dúvidas e incertezas, posso até mesmo escutar o som da sua voz me dizendo, durma agora minha filha porque amanhã será outro dia e tudo se ajeita. Porém queria mais, queria presença concreta, afago, colo, conselho, resposta, partilha de mãe com a filha que agora é mãe.
Eu grávida do Vinícius em 1990
As mães deveriam viver para sempre. Existe coisa mais triste que filho sem mãe? Mas Deus sabe de todas as coisas. Pode existir coisa mais fora de contexto, mas sem propósito do que a mãe ter que velar o seu próprio filho? É contra a lei natural da vida. Só agora entendo essa dinâmica e me conformo com a saudade. Saudade dos conselhos, da alegria e do olhar de cumplicidade. Agora só me resta juntar tudo o que fomos e tudo o que me restou para encontrar o meu caminho e as minhas respostas, baseando-me na sua coragem e no seu amor. E assim me preparar para esperar pelos meus filhos com chocolate quente, bolo de milho e colo macio.           
                                                                                                                                     http://docesencontros.blogspot.com/2007_06_01_archive.html


2 comentários:

Glorinha Leão disse...

Olá, recebi seu comemtário no meu blog com muita alegria.
E seu texto me emocionou profundamente.
Como vc deve ter lido no meu post onde vc pegou a foto, eu também não tenho mais minha mãe....e realmente, como faz falta o seu colo!
Mas, enfim, assim é a vida....só nos resta dar bastante colo a nossos filhos e netos e recordar com carinho dos que já se foram....
Grande beijo

Jacinta Dantas disse...

Num primeiro momento, percebo, no texto, a dor do viver... a falta que nos acompanha no trajeto, desde que nascemos.
Relendo, enxergo puro coração no desejo de viver, uma busca insessante, sem trégua e sem descanso pelo pulsar gerador de vida. Esse pulsar que é próprio de mãe.
Então, Giovanna, penso que mãe - de fato - não morre. Há traços marcantes deixados em cada filho. E, na mãe que você é, mesmo que não perceba, há muito da mulher que você teve como mãe.

Beijos maninha do coração.